Goiás registrou 29 casos confirmados de febre maculosa com infecção dentro do estado entre 2010 e 2026, segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), consultado no TabNet do DataSUS em outubro de 2026. O ano com mais casos foi 2024, com nove. O Distrito Federal teve três casos com infecção local no mesmo período, dois deles em 2026.
Os números são baixos perto do país: o Brasil confirmou 410 casos em 2024 e 361 em 2023, a maioria no Sudeste. Mas a doença existe na região, é transmitida por carrapato e pode matar quando o tratamento atrasa. Para quem tem casa no Lago Corumbá IV, onde capivaras pastam no gramado à beira d'água, vale conhecer o risco e a prevenção.
Capivara no lago e nos condomínios
A capivara é o maior roedor do mundo e vive em grupos perto de rios, lagos e brejos. Come capim, por isso gramado com acesso à água funciona como pasto para ela. Nos registros de ciência cidadã do iNaturalist, a espécie tem 35 observações no recorte que vai de Anápolis ao Distrito Federal.
O crescimento dos condomínios em volta do lago aproximou as capivaras das casas. A área urbanizada na faixa de 1,2 km em volta do reservatório passou de 19,96 km² em 2006 para 39,32 km² em 2023, de acordo com um estudo baseado no MapBiomas. Gramado contínuo até a margem, sem mata, é o ambiente que a capivara procura.
Capivara não é agressiva, mas é um animal grande, que pode morder se for encurralada, sobretudo por cães. O principal problema sanitário não é o bicho, e sim o carrapato que ele carrega.
Carrapato-estrela e febre maculosa
A febre maculosa é causada por bactérias do gênero Rickettsia e transmitida pela picada do carrapato, explica o Ministério da Saúde. No Brasil, duas espécies causam a doença. A Rickettsia rickettsii provoca a forma grave, a febre maculosa brasileira, registrada no Sudeste e no norte do Paraná. A Rickettsia parkeri causa quadros mais leves.
Em Goiás, a Secretaria de Estado da Saúde aponta os carrapatos do gênero Amblyomma como principais transmissores: o carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), o carrapato-da-capivara (Amblyomma dubitatum, também chamado A. cooperi) e o Amblyomma aureolatum. Em pesquisas da SES-GO entre 2011 e 2015, o carrapato-estrela foi coletado em cães, pessoas, antas, cavalos, bois e no ambiente, e foram encontrados carrapatos com riquétsias do grupo da febre maculosa em Goiânia, Jandaia, Indiara e Gameleira de Goiás.
A secretaria registra ainda que, nas formas graves sem tratamento precoce, cerca de 80% dos casos evoluem para óbito.
Casos em Goiás
| Ano | Casos confirmados com infecção em Goiás |
|---|---|
| 2010 | 1 |
| 2012 | 2 |
| 2015 | 2 |
| 2016 | 2 |
| 2017 | 3 |
| 2019 | 4 |
| 2020 | 2 |
| 2022 | 1 |
| 2024 | 9 |
| 2025 | 1 |
| 2026 (parcial) | 2 |
Fonte: Sinan/DataSUS, por unidade da federação de infecção. Anos sem linha não tiveram caso confirmado. Dados de 2023 em diante estão sujeitos a revisão.
Os primeiros casos confirmados no estado foram em Gameleira de Goiás, em 2010, segundo a SES-GO. Em 2022, a secretaria capacitou servidores de sete municípios do Entorno Sul para vigilância de febre maculosa, doença de Chagas e leishmaniose.
Sintomas e quando procurar atendimento
Os sintomas listados pelo Ministério da Saúde são febre, dor de cabeça forte, náusea e vômito, diarreia, dor abdominal e dor muscular. Com a evolução, aparecem manchas vermelhas nos pulsos e tornozelos que não coçam e podem se espalhar para palmas das mãos e solas dos pés.
O diagnóstico é difícil nos primeiros dias porque os sintomas lembram dengue, leptospirose e outras doenças. Por isso, ao procurar atendimento depois de dias no lago, diga ao médico que esteve em área com capivara, cavalo ou mato e se encontrou carrapato no corpo. O ministério orienta que o antibiótico seja iniciado já na suspeita, sem esperar o resultado do exame, e o tratamento é oferecido no SUS.
Prevenção no gramado e no lote
O carrapato espera o hospedeiro na ponta do capim. As medidas abaixo seguem as orientações do Ministério da Saúde e se aplicam a quem passa o fim de semana no lago:
- Grama baixa. Mantenha o gramado aparado, sobretudo nas áreas de circulação entre a casa, o píer e a prainha. Evite deixar faixas de capim alto encostadas na casa.
- Roupa clara. Em área de mato ou gramado com capivara, use calça comprida, camisa de manga longa e bota, com a barra da calça dentro da meia. Na roupa clara o carrapato aparece.
- Repelente na pele exposta e na roupa, seguindo o rótulo.
- Inspeção do corpo. Depois de andar no gramado ou na trilha, confira o corpo todo, com atenção a virilha, axilas, atrás dos joelhos, cintura e couro cabeludo. Faça o mesmo nas crianças.
- Retirada correta. Use pinça, segure o carrapato rente à pele e puxe sem apertar o corpo dele. Não queime nem esmague. Quanto antes o carrapato sai, menor o risco de transmissão.
- Roupas na água fervente. O ministério orienta ferver as roupas usadas em área de carrapato.
- Pets. Cão e gato que circulam no gramado trazem carrapato para dentro de casa. Use carrapaticida veterinário e confira o pelo depois dos passeios.
Para o paisagismo, plantas nativas em canteiros, com áreas de grama menores e bem cuidadas, reduzem o capim alto perto da casa. O guia de paisagismo com plantas do cerrado traz opções.
Cerca e convivência com a capivara
Quem não quer capivara no gramado tem como opção a cerca. Uma tela baixa e bem fixada no chão, na divisa com a margem, impede a entrada do grupo. As opções de material estão no guia sobre cerca, alambrado e muro.
Antes de cercar, confira duas coisas. A primeira é a APP do reservatório: a faixa de preservação pertence à área da concessão e vem sendo cercada pela Corumbá Concessões desde agosto de 2023, por determinação do Ibama, com passagens mantidas para pessoas e para animais beberem água. Obra dentro da APP depende de autorização. A segunda é o regimento do condomínio, que pode definir altura e tipo de cerca, como mostra o guia de regras dos condomínios.
O que é proibido
Caçar, matar, perseguir ou capturar capivara é crime ambiental pelo art. 29 da Lei 9.605/1998, com detenção de seis meses a um ano e multa. A Lei estadual 14.241/2002, de Goiás, proíbe a caça predatória, o transporte, o consumo e o comércio de fauna silvestre sem autorização, além de atos de maus-tratos.
Alimentar capivara não aparece como crime nas leis citadas, mas é desaconselhado: o animal perde o medo, passa a procurar as casas e leva o carrapato junto. Vários condomínios proíbem a prática no regimento interno.
Também não cabe ao morador remover o grupo por conta própria. Se uma capivara estiver ferida, presa ou dentro de uma área construída, o caminho é acionar a Polícia Militar pelo 190, que encaminha ao Batalhão de Polícia Militar Ambiental, ou a Linha Verde do Ibama, no 0800-618080. Outras espécies que circulam em volta do lago estão no guia dos animais do Lago Corumbá IV.
Perguntas frequentes
Capivara transmite febre maculosa?
A capivara não transmite a doença diretamente. Quem transmite é o carrapato, e a capivara é hospedeira de carrapatos do gênero Amblyomma, os mesmos apontados pela SES-GO como vetores em Goiás.
Tem febre maculosa em Goiás?
Tem, com poucos casos. O Sinan registra 29 casos confirmados com infecção em Goiás entre 2010 e 2026, nove deles em 2024.
Como tirar carrapato da pele?
Com pinça, segurando rente à pele e puxando sem apertar o corpo do carrapato. Não queime nem esmague, e procure atendimento se surgir febre nos dias seguintes.
Como evitar carrapato-estrela no gramado?
Mantenha a grama baixa, use roupa clara e bota em área de mato, aplique repelente e confira o corpo e os pets depois de cada passeio.
Pode matar ou espantar capivara do condomínio?
Matar ou caçar é crime pela Lei 9.605/1998. Para impedir a entrada, a saída é cerca no lote, respeitando a APP e o regimento do condomínio.



