A água captada no Lago Corumbá IV para abastecer o DF e o Entorno tem cianobactérias em quantidade alta, mas as toxinas produzidas por elas ficaram sempre abaixo do limite de potabilidade em 2023 e 2024. A conclusão é de técnicos da Saneago que analisaram 99 amostras no ponto de captação, em Luziânia, em trabalho apresentado no 33º Congresso da ABES, a associação brasileira de engenharia sanitária.
O mesmo estudo afirma que a densidade de cianobactérias indica degradação do manancial e que, em parte das coletas, a água ficou fora do padrão recomendado para recreação de contato. Um estudo anterior, da UnB, de 2020, tinha encontrado a água do reservatório em boas condições. Os dois resultados não se contradizem: medem coisas diferentes, em épocas diferentes.
O que encontrou a Saneago (2023 e 2024)
A Saneago monitora o lago desde 2022, quando ele passou a abastecer a população pelo Sistema Corumbá. As coletas seguem a Portaria GM/MS nº 888/2021, do Ministério da Saúde, que define o padrão de potabilidade da água no Brasil.
Os resultados de 99 coletas feitas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024:
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Densidade média de cianobactérias | 93.236 células/mL |
| Amostras abaixo de 10.000 células/mL | 1 de 99 |
| Amostras acima de 100.000 células/mL | 39% |
| Amostras com cianotoxinas detectadas | 10% |
| Cianotoxinas acima do limite de potabilidade | nenhuma |
Os gêneros mais comuns foram Anathece, Aphanocapsa, Cyanodictyon, Planktolyngbya e Radiocystis.
Como ler esses números
As cianobactérias são microrganismos que vivem naturalmente em lagos e rios. Elas se multiplicam quando a água recebe excesso de nutrientes, como os que vêm de esgoto e de adubo, e quando faz calor. Algumas produzem toxinas, por isso a contagem é acompanhada de perto em mananciais de abastecimento.
Os autores usam como referência a Resolução Conama nº 357/2005:
- Até 10.000 células/mL: pela Portaria 888, abaixo desse nível não é obrigatório pesquisar toxinas. No Corumbá IV, só uma amostra ficou abaixo dele.
- Média de 93.236 células/mL: típica de manancial Classe 3, categoria de água que só pode ir para consumo humano depois de tratamento convencional ou avançado.
- Acima de 50.000 células/mL: a água não é indicada para dar de beber a animais.
- Acima de 100.000 células/mL: a água não é adequada para recreação de contato, como nadar. Isso aconteceu em 39% das coletas.
A conclusão dos autores é que a densidade de cianobactérias aponta para a degradação do manancial e que, "eventualmente", métodos de tratamento avançado serão necessários.
A água da torneira é segura?
Pelos dados publicados, sim. A água que sai do lago passa pela estação de tratamento do Sistema Corumbá, em Valparaíso de Goiás, operada pela Caesb. O estudo da Saneago informa que as cianotoxinas, quando apareceram na água bruta, ficaram sempre abaixo do limite fixado para a água potável.
O ponto de atenção está no futuro. Se a carga de nutrientes no lago crescer, o tratamento atual pode deixar de ser suficiente. É isso que os técnicos sinalizam quando falam em tratamento avançado.
Dá para nadar no Lago Corumbá IV?
Não há resposta única para o lago inteiro. O estudo da Saneago mediu a água em um único ponto, o da captação, em Luziânia. Em 39% das coletas, a densidade de cianobactérias ali passou do limite que a Resolução Conama 357 considera adequado para recreação de contato.
Isso não significa que todas as prainhas do lago estejam impróprias o tempo todo. A balneabilidade, no sentido técnico, é avaliada principalmente pela presença de bactérias de origem fecal, segundo a Resolução Conama nº 274/2000. Não encontramos boletim público e periódico de balneabilidade para as praias do Corumbá IV, nem da Semad-GO, nem das prefeituras.
Na dúvida, o bom senso ajuda:
- evitar entrar na água quando ela estiver esverdeada, com espuma ou com cheiro forte;
- não beber a água do lago;
- avisar a Corumbá Concessões, pelo (61) 3462-5200, se encontrar peixes mortos.
Para conhecer as prainhas e o que fazer no lago, veja a seção de lazer.
O que mostrou o estudo da UnB (2020)
Uma dissertação de mestrado defendida na UnB em 2020, de Raiane Francy Costa Machado Silva, avaliou parâmetros físico-químicos em vários pontos do reservatório. As principais conclusões:
- apesar da variação entre pontos e épocas, a água estava em boas condições e dentro dos limites da legislação;
- não houve correlação estatística entre o uso do solo no entorno e os parâmetros de qualidade medidos;
- os pontos perto de centros urbanos e de estações de esgoto tinham uma assinatura físico-química diferente dos demais;
- a ocupação por empreendimentos sem saneamento, crescente desde o enchimento do lago em 2005, foi apontada como risco.
O estudo da UnB e o da Saneago usaram métodos diferentes. A UnB olhou parâmetros físico-químicos em vários pontos do lago; a Saneago contou cianobactérias e toxinas em um único ponto, com 99 coletas em 2023 e 2024.
Esgoto e ocupação das margens
A ocupação ao redor do lago dobrou em menos de duas décadas. Um artigo de pesquisadores da UnB publicado em 2025 na revista Geografares mediu a área urbanizada numa faixa de 1,2 km a partir das margens:
| Ano | Área urbanizada | Método |
|---|---|---|
| 2006 | 19,96 km² | base de referência do artigo |
| 2023 | 39,32 km² | MapBiomas |
| 2023 | 53,27 km² | mapeamento manual dos autores |
Os dois números de 2023 vêm de métodos diferentes, e os autores apresentam ambos. A maior sobreposição entre ocupação e áreas que o plano ambiental do reservatório reservava para conservação está em Alexânia e Abadiânia.
Das 40 nascentes mapeadas na região pelo projeto Água Viva, em 2016, só 3 estavam preservadas, segundo a edição impressa do Correio Braziliense de 7 de abril de 2022.
Quem compra imóvel no lago pode conferir, na página de cada condomínio, se há informação sobre fossa, rede de esgoto ou estação de tratamento.
Enquadramento: a meta oficial para a água do lago
Em 18 de junho de 2026, o Comitê da Bacia dos Rios Corumbá, Veríssimo e da porção goiana do São Marcos (CBH CVSM) aprovou a proposta de enquadramento dos rios da bacia, na Deliberação nº 029/2026. O enquadramento define a qualidade que cada trecho de rio deve ter.
Pela proposta:
- o rio Corumbá, da nascente até a foz, fica na Classe 2 nas três metas (2030, 2035 e 2045);
- os trechos finais dos rios Areias e das Antas, que desembocam no reservatório, têm meta de Classe 3 até 2030 e de Classe 2 em 2035 e 2045.
Classe 2 é a categoria que permite nadar e abastecer a população após tratamento convencional. Como a média de cianobactérias medida pela Saneago é típica de Classe 3, a meta exige melhora. A deliberação ainda precisa de um programa de efetivação e da aprovação do Conselho Estadual de Recursos Hídricos.
Para entender a fauna que depende dessa água, leia Peixes do Lago Corumbá IV. A localização dos pontos citados está no mapa.
Perguntas frequentes
A água do Lago Corumbá IV é boa?
A água tratada que sai do Sistema Corumbá atende ao padrão de potabilidade, segundo a Saneago. A água bruta do lago tem cianobactérias acima do desejável, e os técnicos veem sinais de degradação do manancial.
Pode nadar no Lago Corumbá IV?
Não há boletim oficial de balneabilidade para as praias do lago. No ponto de captação, em 39% das coletas de 2023 e 2024 a densidade de cianobactérias passou do limite recomendado para recreação. Evite água esverdeada ou com espuma.
O que são cianobactérias?
São microrganismos comuns em lagos e rios que se multiplicam com excesso de nutrientes e calor. Algumas produzem toxinas, por isso são monitoradas em mananciais de abastecimento.
Tem esgoto no Lago Corumbá IV?
A dissertação da UnB de 2020 identificou assinatura diferente na água perto de centros urbanos e estações de esgoto e apontou a ocupação sem saneamento como risco.



