O Lago Corumbá IV é artificial. Ele surgiu entre 2005 e 2006, quando a barragem da Usina Hidrelétrica Corumbá IV, em Luziânia (GO), fechou o rio Corumbá e alagou 173 km² de vales e fazendas. O enchimento começou em 2005 e levou cerca de 11 meses até a primeira turbina girar, segundo a dissertação de Lidia Mejia na UnB (2007).
A história do lago, porém, começa alguns anos antes, com estudos de engenharia, um decreto federal e uma disputa judicial que acompanhou o enchimento.
Os estudos, de 1998 a 1999
Os estudos da bacia do alto Corumbá foram feitos entre 1998 e 1999 pela Themag Engenharia e pela Construtora RV. Eles mostraram que duas usinas eram viáveis no trecho, Corumbá III e Corumbá IV, conta a Corumbá Concessões, empresa que opera a usina.
O Estudo de Impacto Ambiental ficou pronto em 1999, e a agência ambiental de Goiás da época emitiu a licença prévia 017/99. Rio abaixo já existia a usina de Corumbá I, perto de Caldas Novas, em operação desde 1996. A história completa do rio e das usinas está em Rio Corumbá: nascente e usinas.
A empresa e a concessão, em 2000
A Corumbá Concessões foi formada no início de 2000 pela CEB, a Companhia Energética de Brasília, e pela Via Engenharia. A Via saiu depois e deu lugar à Serveng Civilsan e à C&M Engenharia. A data de fundação registrada pela empresa é 6 de setembro de 2000.
Em 14 de novembro de 2000, um decreto federal deu à empresa a concessão da usina, como produtora independente de energia, por 35 anos. Ao fim do contrato, os bens voltam para a União.
Além da energia, a usina era apresentada como solução de água. A promessa do governo do Distrito Federal era resolver o abastecimento de água do DF e de cidades goianas por um século, registrou o site ((o))eco na época da obra.
As licenças passam ao Ibama
Em 2004, o licenciamento saiu da esfera estadual e passou para o Ibama. A obra levou cinco anos e gerou 1,2 mil empregos diretos e 4 mil indiretos, segundo a concessionária. A licença de operação saiu em dezembro de 2005.
O custo também tem versões diferentes. A concessionária fala em 600 milhões de reais. O verbete da Wikipédia cita uma estimativa inicial de 180 milhões e um custo realizado de 783 milhões, mas sem indicar a fonte.
O enchimento polêmico
O enchimento foi o capítulo mais contestado. Na reportagem "Água de alto risco", o ((o))eco relatou que a empresa obteve autorização judicial para alagar a área sem concluir a retirada da vegetação exigida pelo Ibama. Parte da madeira cortada boiava no reservatório, e outra parte, não derrubada, ficou submersa. Sedes de fazendas que deveriam ter sido demolidas também foram cobertas pela água.
O estudo de impacto foi elaborado pela Via Engenharia, que venceu o leilão da ANEEL em parceria com a CEB. O Ministério Público Federal já havia entrado com ação civil pública contra a obra, apontando fragilidades no estudo de impacto. Uma das críticas: o EIA avaliou só os impactos locais, quando deveria considerar o efeito conjunto das quatro hidrelétricas autorizadas no rio Corumbá. O temor era a qualidade da água, já que o lago também seria manancial.
A captação de água demorou. O projeto de abastecimento nasceu em 1989 como sistema Grande Luziânia, e a captação original planejada ficou submersa com o enchimento, segundo o Governo de Goiás. O Sistema Corumbá só foi inaugurado em 6 de abril de 2022, com 2,8 mil litros por segundo.
Inauguração: fevereiro ou abril de 2006?
As fontes não batem. A página de história da concessionária fala em inauguração em fevereiro de 2006. A página de visão geral, do mesmo site, e o relatório da CEB Participações dão 4 de abril de 2006. A ANEEL registra a entrada em operação em 1º de abril de 2006. Nenhuma das fontes explica a diferença.
O reservatório ficou com cerca de 3,7 bilhões de m³ de água, 783,7 km de perímetro e mais de 9.000 hectares de Área de Preservação Permanente. Em 2012, o Ibama renovou a licença de operação por seis anos e aprovou o PACUERA, o plano de uso do entorno.
O que ficou debaixo d'água: arqueologia
Antes do enchimento, o Museu de Antropologia da Universidade Federal de Goiás fez o salvamento arqueológico da área, entre 2002 e 2004. Foram identificados 40 sítios lito-cerâmicos, com vestígios de pedra e cerâmica, dos quais só 3 estavam bem preservados. A equipe recolheu 4.885 peças, segundo a Corumbá Concessões.
As comunidades rurais
O lago cobriu terras de oito municípios, segundo Mejia: Luziânia, Santo Antônio do Descoberto, Alexânia, Corumbá de Goiás, Abadiânia, Silvânia, Novo Gama e Gameleira de Goiás. A concessionária lista sete, sem Gameleira. A área inundada abrigava sedes de muitas fazendas e outras benfeitorias, segundo o ((o))eco.
O uso da terra mudou depressa. As antigas fazendas da beira do rio viraram margem de lago, e a margem virou loteamento. Em março de 2006, semanas antes da inauguração oficial, o ((o))eco já publicava "Corrida à beira-lago", sobre lotes pequenos vendidos em Luziânia fora do tamanho mínimo exigido em área rural. Duas décadas depois, a área urbanizada a até 1,2 km do lago passou de 19,96 km² em 2006 para algo entre 39 e 53 km² em 2023, segundo Muzzolon e Laranja (Geografares, 2025).
Hoje são 176 condomínios e loteamentos mapeados por este site em volta do lago. A lista está em condomínios, e o que se sabe sobre o reservatório, em o Lago Corumbá IV.
Perguntas frequentes
O Lago Corumbá IV é natural ou artificial?
Artificial. É o reservatório da Usina Hidrelétrica Corumbá IV, formado pelo represamento do rio Corumbá entre 2005 e 2006.
Quando o Lago Corumbá IV foi criado?
O enchimento começou em 2005 e durou cerca de 11 meses. A usina foi inaugurada em 2006: a concessionária cita fevereiro e 4 de abril, e a ANEEL registra 1º de abril.
Quem construiu a usina de Corumbá IV?
A Corumbá Concessões S.A., formada em 2000 pela CEB e pela Via Engenharia. A Via foi substituída depois pela Serveng Civilsan e pela C&M Engenharia.
O que havia no lugar do lago?
Fazendas, matas de Cerrado e 40 sítios arqueológicos, estudados pela UFG entre 2002 e 2004 antes do enchimento.



